quinta-feira, 13 de junho de 2013

Literatura de Cordel e o Mestre Sebastião Chicute ( Por MÁRCIO DE SOUSA GURGEL*)

Literatura de cordel também conhecida no Brasil como folheto, é um gênero literário popular escrito frequentemente na forma rimada, originado em relatos orais e depois impresso em folhetos. Remonta ao século XVI, quando o Renascimento popularizou a impressão de relatos orais, e mantém-se uma forma literária popular no Brasil. O nome tem origem na forma como tradicionalmente os folhetos eram expostos para venda, pendurados em cordas, cordéis ou barbantes em Portugal. No Nordeste do Brasil o nome foi herdado, mas a tradição do barbante não se perpetuou: o folheto brasileiro pode ou não estar exposto em barbantes. Alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, também usadas nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores. Para reunir os expoentes deste gênero literário típico do Brasil, foi fundada em 1988 a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, com sede no Rio de Janeiro.


História

Literatura na forma de folhetos ou panfletos tem sido usada ao longo de séculos, como meio económico. Folheto holandês de 1637, durante a tulipomania

A história da literatura de cordel começa com o romanceiro do Renascimento, quando se iniciou impressão de relatos tradicionalmente orais feitos pelos trovadores medievais, e desenvolve-se até à Idade Contemporânea. O nome cordel está ligado à forma de comercialização desses folhetos em Portugal, onde eram pendurados em cordões, chamados de cordéis.1 Inicialmente, eles também continham peças de teatro, como as de autoria de Gil Vicente (1465-1536). Foram os portugueses que introduziram o cordel no Brasil desde o início da colonização.

Chegada ao Brasil

A literatura de cordel chegou ao Brasil no século XVIII, através dos portugueses. Aos poucos, foi se tornando cada vez mais popular. Nos dias de hoje, podemos encontrar este tipo de literatura, principalmente na região Nordeste do Brasil. Ainda são vendidos em lonas ou malas estendidas em feiras populares.

De custo baixo, geralmente estes pequenos livros são vendidos pelos próprios autores. Fazem grande sucesso em estados como Pernambuco, Ceará, Alagoas, Paraíba e Bahia. Este sucesso ocorre em função do preço baixo, do tom humorístico de muitos deles e também por retratarem fatos da vida cotidiana da cidade ou da região. Os principais assuntos retratados nos livretos são: festas, política, secas, disputas, brigas, milagres, vida dos cangaceiros, atos de heroísmo, milagres, morte de personalidades etc.

Em algumas situações, estes poemas são acompanhados de violas e recitados em praças com a presença do público.

Um dos poetas da literatura de cordel que fez mais sucesso até hoje foi Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Acredita-se que ele tenha escrito mais de mil folhetos. Mais recentes, podemos citar os poetas José Alves Sobrinho, Homero do Rego Barros, Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva), Téo Azevedo. Zé Melancia, Zé Vicente, José Pacheco da Rosa, Gonçalo Ferreira da Silva, Chico Traíra, João de Cristo Rei e Ignácio da Catingueira.Vários escritores nordestinos foram influenciados pela literatura de cordel. Dentre eles podemos citar: João Cabral de Melo, Ariano Suassuna, José Lins do Rego e Guimarães Rosa.

Poética do cordel:

- Quadra: estrofe de quatro versos.

- Sextilha: estrofe de seis versos.

- Septilha: é a mais rara, pois é composta por sete versos.

- Oitava: estrofe de oito versos.

- Quadrão: os três primeiros versos rimam entre si; o quarto com o oitavo, e o quinto, o sexto e o sétimo também entre si.

- Décima: estrofe de dez versos.

- Martelo: estrofes formadas por decassílabos (comuns em desafios e versos heróicos).

Literatura Oral

Faz parte da literatura oral os mitos, lendas, contos e provérbios que são transmitidos oralmente de geração para geração. Geralmente, não se conhece os autores reais deste tipo de literatura e, acredita-se, que muitas destas estórias são modificadas com o passar do tempo. Muitas vezes, encontramos o mesmo conto ou lenda com características diferentes em regiões diferentes do Brasil. A literatura oral é considerada uma importante fonte de memória popular e revela o imaginário do tempo e espaço onde foi criada.

Muitos historiadores e antropólogos estudam este tipo de literatura com o objetivo de buscarem informações preciosas sobre a cultura e a história de uma época. Em meio a ficção, resgata-se dados sobre vestimentas, crenças, comportamentos, objetos, linguagem, arquitetura etc.

Podemos considerar como sendo literatura oral os cantos, encenações e textos populares que são representados nos folguedos.

Exemplos de mitos, lendas e folclore brasileiro: saci-pererê, curupira, boto cor de rosa, caipora, Iara, boitatá,

lobisomem, mula-sem-cabeça, negrinho do pastoreio.



Histórico:



Sebastião Chicute começou a brincar de reis, como ele diz, em 1952. “Naquele tempo os meninos iniciavam brincando de dama, não tinha maldade, hoje os meninos não querem vestir a roupa de dama.” Como dama, criança, pode observar todos os passos e todas as gingas do reisado com os mestres e caboclos que brincavam à época.

Esta primeira experiência foi vivenciada na serra de Aratuba.. Lá segundo ele havia muitos reisados,”todo mundo brincava na festa dos reis.” Então ele foi crescendo neste ambiente. É do reisado que trouxe a vertente do cordel que veio desempenhar mais tarde.

De Aratuba veio para Capistrano e sempre cultivando a tradição dos reis. Durante o resto do ano fazia quermesses, outra tradição popular nascida nas festas da igreja, nelas os destaques eram as rainhas dos partidos azul e encarnado, assim se chamava o vermelho antigamente. Em Portugal ainda é assim. Bricou reisado praticamente todos os anos, passando por todas as personagens e figuras do reisado.

Na década de 80 foi para Itapiúna. Lá teve apoio da Prefeitura. Se apresentou em Fortaleza na feira dos municípios e para a dra. Lirisse Porto, uma admiradora do reisado e da cultura popular. O grupo de Itapiúna t segundo ele era bem organizado, tinha todo apoio: material, vestimentas e transporte.

Na década de 90 veio definitivamente para Capistrano. Brincou nesse período no reisado do mestre Chico do Mundô e depois organizou o seu grupo com os mais antigos do lugar, com os quais brinca até hoje.

Com a criação da secretaria de Cultura em 2005, o grupo teve um novo impulso brincando em vários lugares dentro e fora do município de Capistrano.

Diferentemente de outras formas de literatura, o cordel é derivado da tradição oral. Isto é, surge da fala comum das pessoas, e também das histórias como contadas por elas, e não como fixadas no papel. "Onde quer que existam populações que não sabem ler nem escrever, existirá poesia oral, conto oral, narrativa oral, porque as pessoas não acham que o analfabetismo pode impedi-las de praticar a poesia e a narrativa. A literatura nasceu oral e foi assim durante milênios. Quando a Ilíada e a Odisseia foram transpostas pela primeira vez para o papel, já tinham séculos de idade", afirma o escritor Braulio Tavares



DO REISADO AO CORDEL



As músicas de entrada do reisado e as das figuras. São decoradas, mas no seu desenvolvimento carecem da criatividade do mestre e seus auxiliares, que improvisam de acordo com o tema, com a clientela e o local. Daí surgiu no Bastião Chicute a sua “veia poética”. Ao descobrir a poesia viajou nela discorrendo vários temas em cerca de vinte cordéis publicados e inúmeros versos poemas e canções inéditas .Surge assim um cordelista, um poeta de banca, posto que não é violeiro. Mas a sua capacidade de improvisar no reisado é que dá originalidade nas suas apresentações.

Toda esta experiência está sendo passada para adultos , jovens e crianças que participam do seu grupo, como forma de manter a tradição.



MESTRE DA CULTURA

Sebastião Chicute, é um autêntico artista popular, que dedicou a sua vida à tradição herdada de seus antepassados repassados a ele por seus contemporâneos. Tanto no reisado como na literatura de cordel, tanto no rádio com seu programa tarde sertaneja, como nas quermesses quando ainda não tinha televisão no interior. Tem procurado, como foi dito repassar esta tradição para os que lhe acompanham, mas também para estudantes, da escola básica e superior, em Capistrano, Quixadá e ultimamente em Maranguape, proferindo palestras com seu linguajar de poeta popular. Por isso Chicute merece ser agraciado com o título de Mestre da Cultura do Ceará, que em muito boa hora chegou ao nosso Estado de forma pioneira, pela Secretaria de Cultura do Estado.

A palavra cordel significa justamente por esse atraso grande que existia, nos princípio num era atraso, era um jeito de ser, aquilo mermo quem diz, diz a velha, o velho ditado, quem num tem cachorro caça com gato, né? Pois bem, se ninguém tinha cola, ninguém tinha gráfica. Qué que fazia um cordel? Melava de grude, estendia numa vara, numa corda assim (Seu Sebastião pega o livreto que tem em mãos, abre-o e simula um cordel estendido numa corda) e por esse motivo ficou sendo literatura de cordel [..].

É possível observar que a maneira de falar do cordelista exerce bastante influência em sua escrita, o que nos possibilita um leitura de que tudo é válido para manter e valorizar a sonoridade do poema levantando reflexões do que viria a ser “o correto” ou “o errado” segundo as normas da gramática que condena algumas práticas desta tradição, como a falha na concordância, conforme podemos observar neste pequeno fragmento do cordel A vida e a morte de Frei Damião:

[...] Resolveu vir para o Brasil

Foi este o seu ideal

Bom frade bom confessor

Nos trabalhos clerical

Foi um servo que viveu

Pra nos defender do mal [...]

* Aluno do Curso de História da UECE, disciplina AÇÃO EDUCATIVA PATRIMONIAL, Prof. Dr. FRANCISCO ARTUR PINHEIRO ALVES

CORDEL: VIDA E MORTE DE LEANDRO do MESTRE SEBASTIÃO CHICUTE ( Por Clesivaldo Araújo Silva Júnior *)

Lembro como se fosse hoje, duas da maiores tristezas que senti como criança.Uma havia sido a morte do ídolo Airton Senna, e a outra a morte do primeiro e único cantor que me fazia cantar seus sucessos, Leandro, que formava dupla com seu irmão Leonardo.



Essa pequena introdução sobre o assunto deste artigo, baseado na obra do Cordelista Sebastião Mendes de Sousa, serve para demonstrar os motivos que me levaram a escolher estudar o cordel feito em sua homenagem, escrever sobre um ídolo.



De forma graciosa o mestre Sebastião declama em seus versos um breve resumo da vida de um dos maiores músicos que o Brasil produziu, fato este retratado em uma comoção nacional durante os dias que antecediam sua futura morte. Podemos observar em seu cordel, a sapiência de Sebastião ao descrever tal fato.





Com esta e outra noticia

Pra quem assistiu não nega

Foi a morte de Leandro

Dor que família carrega

Nesse dia a seleção

Perdeu pra Noruega



Com a Morte de Leandro

Brasil inteiro chora

A falta do grande ídolo

A música piora

Leonardo ficou só

Pensa como faz agora





Menino pobre, nasceu em Goianápolis interior de Goiás, batizado como Luís José da Costa, sempre sonhou em ser famoso e largar a vida de trabalhador rural. Aos poucos, já como adutlo, junto com seu irmão, foi fazendo sucesso nas pequenas cidades de Goiás.



Tal sucesso chamava a atenção de programas musicais e gravadoras. O grande salto na carreira aconteceu após o sucesso “Entre tapas e Beijos”, que lhe rendeu sucesso nacional, principalmente com auxílio da mídia televisiva. Foram mais de 25 milhões de discos vendidos em 23 anos de carreira da dupla de irmãos, que seria interrompida pelo câncer e a morte de Leandro dia 23 de junho de 1998.



No hospital São Luiz

Ele ficou internado

Submeteu-se a exames

Tendo pouco resultado

Sempre os médicos garantindo

Deixar o tumor curado



Sofreu parada cardíaca

No dia quinze do mês

De junho como já foi dito

Mas se repete outra vez

Ficou oito dias em coma

Faleceu a vinte e três



A su família chora

O mundo inteiro também

Com a falta do artista

A dupla não fica bem

Essa família enlutada

Só choro e tristeza tem





Capitamos nestes versos de Sebastião, sua sensibilidade em descrever como era visto o cantor Leandro, como sua morte trouxera ao povo uma tristeza ainda não curada pela morte do ídolo Senna 4 anos antes, em período de copa do mundo, também. Era uma comoção e uma vontade de vencer o torneio para homenagear esse ídolo, como fizera-se em 1994.



Leonardo não parou

Exerceu a profissão

Ainda que ver Leandro

Noutra reincarnação

Durante a vida do artista

Realizando a conquista

O desejo do irmão





Em seus versos e suas músicas, Leandro o compositor da dupla, buscava falar de amor, sendo de um jeito mais “caipira”, ou sendo um “ar” mais moderno, não importava o estilo, o prazer era voltado sempre em emocionar seus fãs,seus amigos e seu irmão, além deste que vos escreve.Assim, nosso autor, Sebastião em sua última homenagem ao grande Leandro, ou Luís José da Costa.





Assim Leandro falou

A música pertence a vós

Continue o seu trabalho

Esperançoso e veloz

Porque tudo que ganhamos

Dependeu da nossa voz



Termino pedindo a Deus

Perdão pra os pecados dele

Que as coroas divinas

Sejam colocadas nele

Leonardo ainda diz

Reze e não chore por ele





Agradeço ao mestre da cultura Sebastião Chicute por esta homenagem a esse grande artista brasileiro.

* Aluno do Curso de História da UECE, disciplina LABORATÓRIO DE TEORIA DA HISTÓRIA, Prof. Dr. FRANCISCO ARTUR PINHEIRO ALVES.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

João Capistrano Honório de Abreu (Por: Anderson de Carvalho Gomes Martins *)


 João Capistrano Honório de Abreu nasceu no dia 23 de Outubro de 1853, na cidade de Maranguape, no estado do Ceará e morreu no dia 13 de Agosto de 1927 na cidade do Rio de Janeiro, era um historiador que também adentrou nas áreas da etnografia e da linguística; Capistrano de Abreu, como historiador, de inicio se baseava em conceitos retirados de pensadores como Comte, Taine e afirmava ser adepto do determinismo sociológico, mas posteriormente com a sua entrada na Biblioteca nacional, Capistrano entra em contato com obras de pensadores como Ranke e Sombart e passa a adotar a corrente do realismo histórico.
A “evolução” intelectual de Capistrano pode ser dividida em três partes; “na primeira parte” possuía influencia positivista e se identificava, bastante, com a noção de civilização da escola francesa; na “2 parte” Capistrano passa a ler e se identificar cada vez mais com a escola realista-histórica alemã, nesse período podemos notar um maior amadurecimento na escrita do historiador e por fim na “3 parte” ocorre um aprimoramento dos seus estudos na qual ele busca um apoio em outras ciências tais como a economia, geografia e sociologia.
Capistrano também é considerado um dos primeiros historiadores a dar uma relativa visibilidade às classes populares na historia socioeconômica do Brasil; a obra mais importante de Capistrano de Abreu e a “capítulos de uma historia colonial, 1550 – 1580.”.
Em 1869 foi para a cidade de Recife no estado de Pernambuco, onde cursou humanidades; em 1871, Capistrano de Abreu retorna ao estado do Ceará e na cidade de Fortaleza acaba por fundar a academia francesa que durou até 1875, ano que Capistrano de Abreu se muda para a cidade do Rio de Janeiro nessa cidade acaba se tornando oficial da Biblioteca Nacional, cargo no qual permanece de 1879 ate 1883, ano no qual defende a sua tese “O descobrimento do Brasil e o seu desenvolvimento no século 16” e assim ingressa no colégio Pedro II no qual foi professor de corografia e historia do Brasil ate o ano de 1889; vale ressaltar que Capistrano de Abreu também foi eleito como membro do Instituto histórico e geográfico brasileiro.
* Aluno da disciplina Laboratório de teoria da Historia, do Curso de História da UECE, prof. Dr. FRANCISCO ARTUR PINHEIRO ALVES

Capistrano de Abreu: Um fato a ser lembrado ( Por João Leondenes Facundo de Sousa Júnior *)



O motivo deste artigo não é trazer fatos novos sobre o famoso historiador cearense Capistrano de Abreu, mas sim, relembrar alguns fatos da vida de tão ilustre pessoa. Isso se justifica por dois argumentos: o primeiro, porque se trata de alguém que cuja pesquisa foi fundamental para se conhecer a vida dos sertanejos e os padrões de sua época, o segundo, pela importância que foi cidadão brasileiro e ainda é, tido por muitos como fonte de uma erudição vista em poucos.
Capistrano, no ano de 1907, era considerado o mais importante historiador brasileiro por fazer parte, como colaborador de Varnhagen, da publicação da Historia do Brasil. Ao participar de um concurso sobre teses que abrangiam a formação história do Brasil, aberto pelo Imperador D. Pedro II, Capistrano mostrou-se de uma inteligência nunca antes vista no Rio de Janeiro, pois, ao apresentar sua tese a mesma já ganhara repercussão através da Folha Nova, que veiculava a seguinte afirmação: “Naquele jovem historiador vê-se a musculatura do historiador valente de que sentimos necessidades”[1]. O motivo de tal engrandecimento à Capistrano, é porque nele se desenvolveu uma novidade ao apresentar no seu estudo crítico uma visão diferenciada sobre o sertão, o que posteriormente constituirá, uma das suas maiores contribuições para a história do Brasil[2].
            Qualquer atitude de recontar os fatos da vida deste grande historiador é pequena. A história de grandes homens não se mede somente pelos fatos que ocorreram em sua vida, mas também, na atualização e no reconhecimento de sua contribuição para os povos de outras épocas. Com Capistrano, a história do sertão deixou de ser um simples causo no afã de uma larga historiografia, para tornar-se uma perspectiva da qual pode ser lida toda a história do brasileira.


[1] Folha Nova, 16 de agosto de 1883, reproduzido na Gazeta de 20 de agosto de 1883.
[2] CAPISTRANO, de Abreu João. Capítulos de história colonial: 1500-1800 & Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1992.
* Aluno do Curso de História da UECE, disciplina Laboratório de  Teorias da História, prof. Dr. FRANCISCO ARTUR PINHEIRO ALVES.

Poucas palavras sobre um grande historiador: Capistrano de Abreu e a criticidade de historiar. ( por: Kaliza Holanda da Silva *)


Fundador da progressista Academia Francesa de Fortaleza, João Capistrano Honório de Abreu (1853-1927) também “fundou” uma nova forma de escrever a nossa História. Dotado de incrível argúcia, Capistrano remodelou a historiografia, trazendo a esta um tom mais crítico e de maior sensibilidade.
A ele a História não parecia restringir-se somente aos fatos, não! Havia de se investigar os motivos, os quereres e os sentimentos. Vê-se neste ilustre historiador a capacidade de produzir a História pelo outro e para o outro, sem decepar de suas análises as diversas classes sociais compositoras de nosso Brasil.
Ao escrever “Capítulos de História Colonial”, Capistrano de Abreu tornou-se, com sua História voltada à análise do povo brasileiro, de sua cultura, suas lutas, suas misturas e seus costumes, da natureza local e seu clima, contra ponto de Varnhagen, que, filho de seu tempo, procurou dar na História que produzia ares de importância máxima à forma de colonização empregada pelos portugueses no Brasil, a fim de legitimar lhes o poder.
Conhecido como “O Heródoto do povo”, esse cearense autodidata utilizou-se de uma escrita moderna (para a época) que, mesmo documental e descritiva, descortinava ao leitor a variedade do povo brasileiro, valorizando o mestiço e o nativo, não impondo lhes apenas o papel de figuras secundárias. Devorador de livros, produzia prolificamente, trabalhando a fundo os assuntos os quais se dispunha analisar. Sua síntese fazia brotar as semelhanças e as diferenças que estiveram sempre intercaladas dentro do processo colonizador brasileiro, graças a isso pôde questionar as obras de seus antecessores, superando-os.
Creio que tudo o que se possa escrever, hoje, a respeito de Capistrano, corre o risco de não alcançar a paixão com que ele estudou a História. Se cada historiador de hoje busca-se o fato histórico e suas interpretações como ele buscou, quiçá a produção historiográfica brasileira conseguisse desabrochar mais uma vez, em nova floração. Enquanto isso, colhemos as flores que esse maranguapense nos deixou e depositamo-las aos pés de Clio, requerendo sua benção e sua inspiração. 
* -  Aluna da disciplina Laborátório de Teoria da História, do Curso de História da UECE., Prof. Dr. FRANCISCO ARTUR PINHEIRO ALVES.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Os Dons de Capistrano. Por Natanael de Oliveira dos Santos*


O presente artigo tem como intuito comentar mais que sucintamente algumas peculiaridades deste grande personagem da história cearense e brasileira, estando este no panteão dos maiores historiadores do Brasil.
Capistrano de Abreu ficou conhecido pelo seu vasto conhecimento com relação às fontes e à literatura históricas, sua capacidade crítica e a perspicácia psicológica de que era dotado, o que lhe permitia discursar ou escrever com original sabedoria sobre qualquer assunto da história do Brasil. Seu conhecimento era fruto de sua sede por tê-lo, por buscá-lo, sendo que este não livrava nem suas férias de sua labuta em pesquisar, se é que ele encarava como labuta!
Este também é conhecido pelos seus feitos desconcertantes, até mesmo para os examinadores doutores em sua banca, visto que estes ficaram inebriados pela sua sabedoria , reconhecendo (mesmo que interiormente, pois seria pouco provável que estes o fizessem em público) a superioridade espantosa do seu conhecimento se comparado às suas informações limitadas e vagas sobre o assunto então debatido. Porém, enquanto banca na época, eles tiveram de encarar o difícil fardo de debater contra um mestre, que encarava o seu ofício com prazer e dominava-o como ninguém. Entre outros feitos, Capistrano demonstra ser um homem impetuoso, teimoso (no bom sentido da palavra), perseverante em seus desafios; prova disso seria a sua tese escrita em quarenta dias improrrogavelmente e outra escrita em apenas uma noite!
Segundo José Honório Rodrigues na introdução do livro do aqui personagem principal:
Revela-se Capistrano neste estudo crítico da historiografia de sua época o único homem capaz de, num rasgo, compreender toda a síntese de nossa história, com suas diferenças e ligações, semelhanças e rupturas. Era também uma revelação nova: possuíamos agora um historiador que aliava sua análise documental a uma visão de síntese, sua cultura à capacidade de adivinhação.²

Capistrano de Abreu foi ainda o responsável pela junção dos vários estudos e ensaios ainda não reunidos da historiografia brasileira, revigorando-a, contribuindo para o preenchimento das várias lacunas irrespondíveis da época.
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*Graduando em História, licenciatura plena pela Universidade Estadual do Ceará - disciplina LABORATÓRIO DE HISTÓRIA - Prof. Dr. FRANCISCO ARTUR PINHEIRO ALVES

1. Capistrano de Abreu, João, 1853-1927. Capítulos de história colonial: 1500-1800 & Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1982.

CAPISTRANO DO SÍTIO COLUMIJUBA. Por ÍCARO SOUZA*

Ser um cearense com uma produção intelectual rica e um trabalho de pesquisa histórica abrangente, interdisciplinar, calcado num rigor metódico e numa crítica ferrenha às fontes e às produções contemporâneas, adquirindo referência em seu tempo e permanecendo em debate na posteridade, foi tarefa cumprida prazerosamente por Capistrano de Abreu – apesar de o mesmo, quando em vida, não preocupar-se com elogios ou quaisquer distinções. Oriundo do Sítio Columinjuba, localizado na - à sua época ainda freguesia – cidade de Maranguape, foi após mudar-se para o Rio de Janeiro nos anos setenta dos oitocentos que o cearense ganha destaque no cenário nacional.
As exaustivas leituras e o rigoroso processo de levantamentos documentais resultaram em estudos históricos enriquecidos por elementos geográficos, etnológicos e linguísticos, destacando-se as várias linhas dedicadas ao período colonial. Suas pesquisas são densas, sensíveis, olham para um Brasil à época ignorado por uma historiografia tradicionalista, voltada para as virtudes portuguesas e para o propalado litoral do pau-brasil e da cana-de-açúcar. O interior, os sertões, as terras povoadas pelos indígenas, os caminhos do boi, as minorias étnicas, os hábitos do homem comum, vão sendo desvendados a partir de seus escritos que, como retorno, o promovem com títulos e qualificações os quais ele nem sempre abraça.
“Sua obra pode ser inserida ao lado de outras produzidas em meio a um movimento de redescoberta do Brasil iniciado ainda no século XIX e que se prolongou até, pelo menos, os anos 1950, despertando o interesse pelo interior do país, com suas vastas regiões e populações desconhecidas.” (Rebeca Gontijo, Fundação Biblioteca Nacional, 2010).

Atualmente Capistrano me presta auxílio por meio de sua bibliografia em um trabalho de pesquisa desenvolvido para uma exposição acerca do processo de ocupação dos sertões nordestinos pelo colonizador através das migrações estimuladas pela pecuária. Em “Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil”, Capistrano destrincha este momento, assim como outros episódios dos períodos iniciais do povoamento português no Brasil: traça as rotas das levas de gado, mapeia os rios, as serras, as tribos indígenas, versa sobre o conflito com estas tribos, etc. Hoje, esta obra referencia muitas outras produções historiográficas concernentes a este momento da colonização. 

*Aluno do Curso de História da UECE - disciplina AÇÃO EDUCATIVA PATRIMONIAL - Prof. Dr. Francisco Artur Pinheiro Alves.