A
literatura de Cordel está elencada ao Patrimônio Cultural e faz parte do segmento
de cultura imaterial que reúne todos os tipos de saberes, os modos de fazer, as
formas de expressão, celebrações, as festas, as danças populares, lendas,
músicas, costumes e outras tradições.
O
porquê de preservar a literatura de cordel pode ser explicado pelo fato de que
não só essa literatura, mas como todos os
artefatos relacionados ao Patrimônio Cultural, precisam de uma
seguridade para a sua sobrevivência, perante uma homogeneização da cultura
ampliada pelo processo de globalização, que permitiu uma produção em série de
artigos culturais que faz com que aqueles percam a sua originalidade, afinal
durante muito tempo, a maioria dos objetos materiais e também imateriais eram ora
feitos à mão, de forma bem rústica, ou repassados de geração em geração, o que guardava traços de
memórias e subjetividade. Porém, agora, isso está ameaçado por essa grande
industrialização que valora tais artefatos, ao invés de valorizá-los.
A
literatura de Cordel não foge à essa mudança. Assim, é preciso que haja uma
preservação da cultura dos cordéis, tendo no termo “preservação” a ideia de
conservação, defesa e resguardo, sendo assim, se faz necessário guardar para o
amanhã a nossa produção cultural original, defendendo a nossa memória social e
o que ela nos proporciona, afinal são esses artefatos que definem a nossa
identidade cultural.
Com
esse intuito de preservação da nossa cultura da literatura de Cordel, a
Secretária da Cultura do Governo do Estado do Ceará (Secult), que é referência
quanto à legislação de Patrimônio Imaterial, promove através do programa “Tesouros
Vivos da Cultura”, a seguridade da tradução cultural do cordel por meio de
incentivos aos grandes cordelistas que mantêm viva essa nossa literatura, com
auxílio financeiro e diplomação solene com o título de Mestre da Cultura. Tudo
isso faz com que, embora em meio a mudanças, o cordel continue tendo o seu
espaço dentro do Estado, e também seja resguardado como patrimônio nacional.
E
é Dentro do grupo dos Mestres da Cultura, que tivemos contato com a presença de
Sebastião Chicute. Nascido em Aratuba em 1934, desde menino se dedicou à
literatura de cordel, influenciado, principalmente pelos “causos” bastante
conhecidos à época que perfaziam o imaginário da população e que eram repassados
através das rodas de conversas. Assim, é no de 1967 que ele lança seu primeiro
cordel. Em 1970, ele se muda para a cidade de Capistrano, onde vive até hoje,
mantendo sempre contanto com trabalhos que envolvem poesia, e que o ajudam a se
inspirar a escrever os seus cordéis.
E
é ao cordel de Sebastião Chicute, com o título “Vida e Morte de Michael
Jackson” que esse trabalho vai voltar a sua atenção. Segundo o próprio mestre
da cultura, suas histórias são baseadas em fatos reais e tentam passar a maior
imparcialidade possível quanto aos casos, já que há toda uma questão jurídica
por trás de tais acontecimentos, por isso se faz necessário, ao contar a
história, não especular e se manter atento aos fatos. E é exatamente isso que Chicute
faz com a história de Michael Jackson.
Nas
seis páginas que ilustram o cordel, o cordelista narra a trajetória de vida de
um dos maiores artistas do cenário da música pop, fazendo uma verdadeira homenagem
após o seu falecimento. Assim, logo no começo, ele fala sobre a infância de
Michael Jackson e a sua tumultuada relação com os pais e irmãos, e de como
conseguiu, mesmo com dificuldades, conquistar o sucesso.
A
questão da mudança da sua cor de pele, que sempre esteve presente quando se
fala em Michael
Jackson, é também retratado no cordel. Porém, diferente de
outros meios, nele, o autor não crítica ou satiriza tal mudança, apenas a cita,
afinal essa transformação física do cantor é uma das polêmicas no mundo dos
famosos e pensar Michael Jackson é relacionar com o problema da sua cor de
pele.
O
cordel também faz referência à acusação de abuso de menores, o que marcou para
sempre a fama de Michael Jackson. Porém, Chicute não entra em maiores detalhes,
apenas falando que, por falta de provas, o cantor não fora indiciado. Como se
vê, o autor se detêm a contar a história e não sensacionalizar a vida do
cantor, já que tal fato sempre alvo de atenção por parte da mídia.
Outra questão também pontuada pelo cordel é o
motivo da morte do artista, que ficou por conta da autópsia, o que demorou um
pouco para ser liberada pela mídia, assim, Sebastião apenas escreve que
“Ninguém não sabe a maneira, se foi parada cardíaca que fez a sua derradeira”,
sem fazer especulações, já que como dito anteriormente, por conta de questões
jurídicas, os cordelistas devem se manter aos fatos assim como são transmitidos
pela mídia, e assim, ele continua:
“Sobre o
problema da morte
Ninguém
tem explicação
Só
depois de um laudo médico
É que
vem a decisão
Pode ter
sido um colapso
Que
fechou o coração”
E
nas últimas páginas, o autor fala sobre o velório do cantor, que contou pompas
e presenças ilustres e que nos faz pensar como um menino pobre dos Estados
Unidos conseguiu fazer tão sucesso ao ponto de o seu enterro ter sido assistido
por milhares de pessoas ao redor do mundo. Os últimos versos do cordel retratam
exatamente essa questão: “Nasceu num berço de barro, morreu num berço de ouro.”
Enfim,
essa é a história do cordel em questão, mas que não é somente formado por uma
boa narrativa, esse tipo de literatura tem uma estrutura específica e é se
torna necessário abordá-la. A escrita de “A vida e morte de Michael Jackson é
feita em redondilha maior (sete sílabas poéticas) e possui a divisão métrica
A//B//C//B//D//B.
Vê-se,
assim, que as mudanças citadas anteriormente, proporcionadas pela
industrialização, também afetou, de certa forma, o conteúdo dos cordéis. Antes,
os causos e histórias locais eram as grandes fomentadoras desse tipo de
literatura, porém, com o intuito de se modernizarem e continuarem na ativa, os
cordelistas decidiram que os fatos marcantes da mídia, os casos que chamam a
atenção, e também mais modernos, poderiam ganhar um espaço nos seus cordéis, e
é o que justamente acontece com “A vida e morte de Michael Jackson”. Isso
permite uma renovação dessa literatura, como também serve para chamar a atenção
de leitores, de todas as idades.
Bibliografia.
PELEGRINI,
Sandra C.A, FUNARI, Pedro Paulo A. O que
é patrimônio cultural imaterial. São Paulo: Braziliense, 2008.
LEMOS,
Carlos A.C. O que é patrimônio histórico.
São Paulo: Braziliense, 2004.
* Aluna do Curso de História da UECE, disciplina AÇÃO EDUCATIVA PATRIMONIAL, Prof. Dr. Francisco Artur Pinheiro Alves.
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